3 de Abril de 2011. 22H. Teatro Municipal Maria Matos, Lisboa.
Bernardo Fachada programou uma série de quatro concertos nesta sala: dois para miúdos, dois para graúdos. Esta foi a primeira noite que a sala principal do teatro se encheu para ouvir o músico e os seus convidados tocar.
Sobre o palco, luzes vindas de uns candelabros que iluminavam os principais pontos de interesse. Um ambiente simples e íntimo que prometia acolher-nos a todos no embalo da música do “cantautor”, que fez acompanhar a sua voz com as teclas, a guitarra e alguma percussão. No contrabaixo e baixo eléctrico esteve o Martim, na bateria a Mariana, e a Francisca Cortesão acompanhou-o na voz, em algumas músicas, e dividiu-se entre o piano, o xilofone e a guitarra - “polivalente”, como lhe chamou B.
O concerto começou ao piano. Apenas com Fachada em palco. Num ambiente muito íntimo. Ouviu-se Índios da Meia-Praia, de Zeca Afonso, num tempo lento, respirado e calmo. Seguiu-se Só te falta seres mulher, uma canção de versos fortes.
Depois, Lula Pena entrou em Palco para O Barrigão e, daí em diante, grande parte do “É P’ra Meninos” foi-nos oferecido. Martim e Mariana marcaram a percussão da divertida “Tó-Zé” e, apesar dos sorrisos que a letra provocava no público, o tempo tropeçou por duas vezes e os músicas terminaram a canção a entreolharem-se divertidos como quem diz: “Ups, mandamos uns belos pregos”.
B Fachada olhava o público. Dizia-nos que não estava muito conversador, mas “não são vocês, eu é que estou muito cansado”. Parece que os miúdos, para quem tinha tocado durante a tarde, tinham-no esgotado. “Realmente, quem é que se lembra de fazer concertos para crianças? Eu, pois, fui eu.”, dizia entre risos.
Seguiram-se A Casa do Manel, Dia de Natal, Questões de Moral - uma grande música, talvez das melhores executadas e interpretadas ao longo do concerto.
Conselhos de Avô não entrou bem. Os quatro músicos entraram cada um para seu lado. Mas nada como agir com naturalidade. Afinal, os músicos não são máquinas. Desataram a rir entre si, o que provocou gargalhada geral entre os que assistiam. À segunda foi de vez. No final, justificou: “Podem pensar que isto de nós não nos entendermos bem é amador. Mas não é. É só sem truque”. E mais uma vez contagiava com a boa disposição.
Canta, depois, Agosto. Uma belíssima música, diria eu, para terminar a incursão pelo último álbum lançado.
Segue-se Estar à espera ou procurar, do trabalho homónimo. B Fachada diz que “Para terminar, Tempo para Cantar”.
Saem de palco, cá fora aplaude-se com força e entusiasmo. Queremos mais e estamos curiosos para ver o que nos reserva o encore.
Bernardo volta sozinho, com ar bem disposto, mas nitidamente estafado. Ainda assim, empenha-se na oferta de Memórias de Paco Forcado, Vol.1 do EP “Há Festa na Moradia”, de 2010, e “Kit de Prestidigitação”, voltando novamente ao álbum homónimo. Numa destas, troca os acordes, numa dissonância que o faz largar uma enorme gargalhada. Nós rimos com ele.
No fim, o público não se cansa de aplaudir. B Fachada diz que “agora já chega”, quando percebe que deste lado queremos mais. Muito mais. Deixa-se ficar a contemplar a gente que preenche as cadeiras do Maria Matos e, momentos depois, sai, dizendo adeus e mostrando-se agradecido.
Aspectos negativos: O concerto foi demasiado pequeno. Apenas uma hora não foi, nem por sombras, suficiente para satisfazer a nossa vontade de o ver ao vivo; O cansaço de Fachada, que o próprio anunciou, deixou-se transparecer algumas vezes: quer nos enganos que foram surgindo, quer no pouco prazer que pode ter revelado a tocar algumas músicas.
Conclusão: Ficou abaixo das expectativas. Talvez elas fossem demasiado altas. Estava, claramente, à espera de mais. No entanto, a qualidade da música e a expressividade impregnada em cada canção superam em muito os pontos menos bons. Deixa vontade de querer ver mais.
Em termos musicais nada é muito complexo. Na guitarra, os acordes são os base, os arranjos e apontamentos também simples - note-se o evidente recurso ao capo. A secção rítmica não quer destaque. Dá suporte. O bombo ajuda a não perder o compasso, os pratos, quando aparecem, fazem muita questão de serem discretos. O contrabaixo ilumina o palco e não sai do lugar.
Esta simplicidade só aumenta a admiração, porque é muito bom quando os músicos conseguem fazer bem, emocional, verdadeiro, real e… simples. Os tropeções não nos (ou me) pareceram amadores. Antes naturais. Naturalidade em palco, talvez fosse assim que descreveria a atitude destes quatro jovens músicos em palco.
Quando houver mais quero lá estar.
Fotos: Luís Martins
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